9/04/2009

Köln Concert - Part IIc

Nota: Começo pelo final do Köln Concert (1975) de Keith Jarrett a minha série de comentários de apreciação. Espero que a não-tecnicalidade desses comentários sirva de estímulo à sua leitura, e não de empecilho para os mais puristas.

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Parte IIc - Video:


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Introdução e Contexto

A Parte IIc pode ser compreendida melhor como o encore do concerto. Apesar de ter sido improvisada (até onde se sabe, da mesma forma que as demais peças), a base harmônica relativamente simples e o caráter altamente melódico do tema principal permitiram a reedição posterior desta passagem como uma canção avulsa intitulada Memories of Tomorrow.2 Ao que parece, tal publicação avulsa teve a autorização do próprio intérprete, notadamente zeloso quanto às transcrições oficiais de suas composições improvisadas. Sabe-se que esta parte é o encore do concerto devido à ocorrência de aplausos antes e depois do número. Como de fato ocorreu e tem ocorrido em outras ocasiões, é razoável supor que Jarrett informou de início à platéia a quantidade de movimentos e avisou sobre a possibilidade de aplausos somente ao final. Assim, o contexto desta peça dispensa maiores comentários, embora não seja clara pela gravação a ocorrência ou ausência de outros números (ou fragmentos) adicionais. Em todo caso, foi esta a peça selecionada pelo próprio Jarrett para compor a Parte IIc de forma a concluir o concerto na gravação.

A estrutura possui traços simples, sendo mais notáveis as características de textura do número. Percebem-se três divisões maiores: (1) Um tema, exposto duplamente; (2) Variações, onde a peça atinge seu clímax rítmico e dinâmico, sendo subdivididas em três partes com transições intermediárias; (3) Uma longa coda de retorno ao tema, marcada por um cuidadoso esmorecimento deliberado que leva ao final do concerto.

Exposição do Tema

00:00-00:35 – Sem introdução alguma, a melodia é logo apresentada com sua base harmônica no início. Aparenta lentidão, caso a audição desta passagem se concentre na melodia. Todavia, o acompanhamento é bastante movimentado, com a voz mais baixa a imitar um contrabaixo, e uma voz intermediária grave a apresentar o restante dos acordes e textura. Até à coda, é similar a distribuição de tarefas ao longo de toda a canção. Assim, o que se vê na apresentação do tema recorre, à exceção de algumas variações (principalmente na voz mais aguda). Em suma: a relativa independência da voz mais aguda e melodiosa é regrada pela voz mais grave, sendo harmonizada pelas camadas intermediárias do discurso musical. Tal é o padrão geral que se observa no número, e é exatamente a quebra de tal padrão que denota estruturalmente uma coda ao cabo.

00:35-01:13 – Precedido por uma curta passagem de maior novamente para menor, o tema é novamente apresentado com algumas variações rítmicas na melodia, embora não sejam tão evidentes quanto aquelas ainda por vir. A maior novidade nesta passagem é a ênfase concedida ao acompanhamento agudo da melodia, um pouco apagado no início – e de forma habilidosa no intuito de apresentar sem muito ruído o tema da melodia. Uma vez conhecido o tema, torna-se possível e desejável reapresentá-lo de uma nova forma: desta vez, com uma contramelodia, por assim dizer, a reforçar a harmonia nesta repetição do tema. Os demais acompanhamentos permanecem constantes. A combinação da constância destes com a novidade daquele possibilita apreciar melhor a notável virtude polifônica do intérprete, e a particularidade improvisada da execução da contramelodia empresta uma característica country um pouco deslocada à peça.

Variações

01:13-01:51 – Jarrett inicia a variação melódica antes de voltar ao início da progressão harmônica. As escalas agudas têm começo no acorde de transição para a tonalidade inicial do tema, e não após o reinício. Isso concede à primeira variação um humor de continuação, e não de rompimento, com a reexposição do tema que a antecede. Por extensão, sendo este o início da segunda seção maior da peça, há uma transição bastante sutil e quase imperceptível à primeira vista entre tema e variações. Tudo por conta da referida antecipação do trabalho de uma mão em relação à outra. Por volta de 1:19, um fragmento do tema reaparece escondido na contramelodia, enquanto a melodia se encarrega de escalas e floreados diversos. Essa inversão já antecipa a desconstrução futura maior da melodia principal, sendo quase que totalmente substituída por variações completamente originais nas partes posteriores. Por enquanto, essa tendência é somente antecipada, sendo a melodia temática retomada (em uma versão mais aguda) de 1:24 em diante. Mas note-se o diálogo entre essa melodia retomada e a contramelodia que emerge como resposta a partir de 01:31. De 01:35 a 01:38 Jarrett complexifica a harmonia introduzindo acordes intermediários, apresentando uma solução mais detalhada ao problema de se chegar ao tom maior sem que a continuidade com outra transição e a reintrodução do acorde temático fique muito óbvia. Embora o acorde seja o mesmo da tonalidade inicial da peça, o que se apresenta do 01:38 a 01:45 é um retorno ao final do tema, levando a uma transição que liga esta variação à próxima, iniciada em 01:51. O efeito geral é uma noção de aumento de dramaticidade, resultante desta inserção ‘elástica’ e da dinâmica/intensidade crescentes na sua execução.

Doravante, a tarefa de conferir unidade entre o tema e as variações cabe não à parte usualmente considerada como a principal (a melodia), mas sim à base harmônica e, principalmente, ao baixo que insistente em imitar um contrabaixo. Embora o ritmo e a alusão sejam ao Jazz, essa tomada do papel principal pela base harmônica e a função indispensável do baixo em detrimento da melodia são notadamente resquícios barrocos, mais utilizados nos acompanhamentos de câmara do que em solos instrumentais. Tal fato não desmonta a analogia barroca, dado o aspecto de diversos instrumentos (ou pelo menos um contrabaixo e um piano) simulados aqui.

01:51-02:27 – Esta é possivelmente a variação mais intensa, quebrando de vez com a ênfase da parte aguda na melodia. Desta vez, a base acompanha uma nuvem sonora de escalas que emendam de forma sofisticada um acorde ao outro. A repetição se dá de forma surpreendente na contramelodia, que funciona não mais de resposta a uma melodia dentro dos moldes, mas sim como uma força estabilizadora da nuvem sonora, servindo de auxílio para o repouso gradual. Esse movimento se evidencia principalmente entre 02:06 e 02:20, onde também devem-se notar tanto o fôlego como a técnica de Jarrett ao fazer escalas completamente independentes de qualquer coisa que esteja a ocorrer na base. A própria base inclusive é quebrada no grave para servir ao propósito dessa variação na sua parte aguda, atribuindo certa coloração distinta a esta passagem em particular. 02:24-02:27 é uma transição rápida para a próxima variação em moldes similares à primeira transição após a apresentação inicial do tema, inclusive retornando do agudo para a mesma altura intermediária do começo.

02:27-02:52 – Apesar do retorno de transição à altura inicial da exposição temática, Jarrett quebra a monotonia resultante da continuidade de tal retorno ao transpor para uma porção mais aguda do teclado o tema inicial. As vozes graves, tornando-se agudas, não podem mais fazer a função de contrabaixo imitado. Sendo assim, o intérprete lhes atribui outra função por algum tempo, sendo o baixo desta porção melhor caracterizado como um acompanhamento mais pianístico até que o retorno gradual para a parte intermediária do teclado corresponda a um retorno gradual da ritmação inicial (02:39-02:52). Esta variação sai do contrabaixo e a ele retorna. A novidade que marca as vozes agudas é um retorno à estabilidade do tema, agora transposto e com um ritmo mais preciso do que inicialmente.

Coda

02:52-05:32 – Jarrett introduz a coda de forma súbita, não emendando a variação que a antecede com uma nova seção temática, mas sim com uma repetição do final da melodia. A antecipação da coda nesses termos contribui para diminuir o grau imediato de transição rítmica entre a última variação e a coda, além de essa reexposição do final da melodia temática servir de transição dinâmica entre uma porção intensa e uma porção notadamente branda que é a parte final do número. Nesta transição devem-se notar: (1) a substituição do acompanhamento movimentado por pares de acordes inteiros, sendo o primeiro em geral uma transição para o acorde de duração mais longa (02:56-03:07); (2) a transformação do segundo acorde em uma nota simples, representando uma transição entre pares de acordes e um acompanhamento pianístico leve no qual os primeiros tempos proveem a harmonia e os demais tempos do compasso repetem notas dentro do acorde dos primeiros tempos (03:07-03:30ff); (3) a introdução gradual de uma contramelodia em resposta à melodia, mas na parte mais aguda (03:30-04:10). O diálogo entre melodia e contramelodia torna-se claro nesta passagem; (4) Um aumento da complexidade harmônica no acompanhamento, com grande ênfase na melodia (04:10-04:36); (5) Uma retomada do diálogo entre melodia e contramelodia, desta vez em forma de ‘perguntas’ e ‘respostas’ (04:46-05:30). Note-se que a ‘palavra final’ é da melodia e que mesmo o acompanhamento parece esmorecer diante da conclusão firme da linha melódica, que permanece ainda por alguns segundos, sendo interrompida pelos aplausos que delineiam o término do concerto.

L.G. Freire

Belo Horizonte, 04 Set. 2009

5/30/2009

See Now!

5/24/2009

A melhor aula de economia...

... e eu precisei de formar em economia para saber que esta aula supera em muito qualquer outra que eu tive (Demora, mas vale a pena, duas horas bem gastas!):

5/19/2009

Entidades e Aspectos Modais

L.G. Freire

A realidade é composta por entidades que existem universalmente de diversos modos. Tome-se o exemplo do futebol como uma entidade. O futebol existe economicamente, socialmente, esteticamente, simbolicamente, espacialmente, cineticamente, numericamente e assim por diante. Não interessa agora listar todos os modos ou aspectos da realidade. Basta que se diga que existem certos aspectos que são irredutíveis, isto é, são universais porque não podem ser "apagados" de qualquer entidade sem que esta perca seu sentido. Que seria do futebol sem seu aspecto jural? Não são as regras que, de certa forma, moldam o jogo e que o diferenciam do rugby ou do cricket? Fica óbvio, então, que as entidades existem necessariamente em diversos modos irredutíveis.

O fato de existirem diversos modos irredutíveis aponta para uma inferência necessária: nenhum desses modos pode ser absoluto. Trata-se quase de uma tautologia, mas nem todos percebem a relevância disto. É que, se quiséssemos afirmar que um aspecto é absoluto (por exemplo, "a realidade última das coisas é de natureza material"), acabaríamos destituindo as entidades reais de sentido. Seria como o futebol sem regras. Sem regras, sem sentido.  Não havendo a possibilidade de redução de um aspecto modal a outro aspecto modal, resta concluir que nenhum deles é absoluto. Logo, todos os aspectos modais são relativos entre si.

Uma ilustração clara que pode ser encontrada na história do pensamento filosófico ocidental é o debate entre monismo e dualismo. Monistas (por exemplo, Thomas Hobbes que postulou a realidade última das coisas como sendo de natureza física-mecânica) acabavam por reduzir os diversos aspectos modais a um só (ou a modalidades fundamentalmente decorrentes do aspecto último). Dualistas (por exemplo René Descartes que encontrou duas realidades últimas, material e ideal, refletidas no seu argumento sobre o mundo dentro e o mundo fora da mente) encontravam dois aspectos fundamentais de onde fluiam os demais modos de existência das coisas. Em ambos os casos, existe uma operação de redução, acabando em perda de sentido. No exemplo monista hobbesiano: é difícil imaginar algo que só existe como um mecanismo e como nada mais. Da mesma forma, não há no dualismo cartesiano uma forma de se conciliarem ambas as realidades últimas.

Contudo, o problema do monismo e do dualismo é um debate que só passa a ocorrer no contexto de um tipo de pressuposto específico: o de que um aspecto modal (ou dois) geram os demais. Em outras palavras, o pensamento teórico se vê comprometido aqui com uma espécie de "axioma" que orienta todo o sistema filosófico: a atribuição de auto-dependência ou de independência a um aspecto modal, ao passo que os demais passam a ser relativos a esse aspecto absoluto. Se quisermos, trata-se da divinização de um aspecto particular da realidade. Aqui pode-se ver que todo o pensamento teórico em último caso é impulsionado por uma ideia de Origem da ordem, da diversidade e da unidade de todas as coisas.

A diversidade de aspectos modais não corrobora os reducionismos que atribuem a Origem a um ou poucos aspectos da realidade. Para uma realidade diversificada, é preciso uma visão teórica pluralista, no sentido de levar em conta todos os aspectos modais básicos. Um aspecto básico é sempre irredutível. Algumas coisas existem "internacionalmente", mas nem todas as coisas existem "internacionalmente", mesmo em um mundo globalizado. Logo, este não é um aspecto básico. Uma teoria que inclua todos os aspectos irredutíveis é possível porque haverá sempre uma lista consideravelmente limitada de aspectos básicos. Tal visão sobre a constituição básica do cosmos deve, portanto, ser não-reducionista, por versar sobre todos os aspectos irredutíveis.

A pluralidade de aspectos modais irredutíveis por si só é apenas um elemento de uma explicação adequada da realidade que experimentamos no dia-a-dia. É preciso acrescentar a essa ideia de diversidade um elemento unificador, uma Origem da sua ordem, unidade e diversidade. O cosmos em si pode teoricamente ser postulado como Origem, mas é incapaz de unificar os aspectos modais irredutíveis e de, ao mesmo tempo, manter a sua unidade. Nessa situação hipotética, terminaríamos com um "monismo cósmico" reducionista, que é justamente o tipo de coisa que queremos evitar no intuito de escapar de uma visão monocromática do mundo. Considerando, então, que nenhum aspecto modal dentro do cosmos pode ser a Origem por si só, nem mesmo todo o cosmos o pode, então resta a opção de remeter essa Origem para fora do cosmos.

Antes de explorar mais essa opção, é preciso destrinchar um pouco o significado da diversidade de aspectos modais. Já afirmamos que eles são reais no mundo atual (não ideal, dado o princípio não-reducionista em jogo). Resta, então, saber o que diferencia um aspecto do outro, e o que os unifica dentro do cosmos. Faz sentido afirmar que um aspecto, sendo irredutível, tem sua própria "dinâmica" de funcionamento interno. Em uma terminologia mais precisa, um aspecto tem seu próprio cerne, ou núcleo, de leis internas únicas. Essas leis identificam um aspecto modal. Assim, por exemplo, a lei central de um aspecto biótico seria a lei do ciclo da vida. A mesma lei não existe exatamente da mesma forma no aspecto histórico-formativo. Mesmo os historiadores biótico-reducionistas utilizavam a lei do ciclo da vida de forma analógica. Isto indica que a lei-cerne de cada aspecto modal irredutível é única e interna ao seu aspecto. Sempre que for abordada do ponto de vista de outro aspecto, por definição, essa lei terá seu sentido original alterado e servirá como metáfora ou analogia.

(Vale notar, de passagem, que a existência de analogias é, assim, mais uma forma de se verificar a irredutibilidade mútua dos aspectos modais básicos.)

A existência de um conjunto de leis-cerne únicas em cada aspecto modal irredutível explica em grande parte a diversidade dos aspectos modais. É claro que as entidades funcionam sob essas leis ora de modo passivo, ora ativo. Eu, por exemplo, escrevo ativamente num pedaço de papel. Mas o artefato "papel" funciona passivamente no modo simbólico-lingual. (Existe também uma ordem progressiva que organiza os aspectos modais de modo que seja possível diferenciar entre todo o bloco de aspectos ativos que qualificam uma entidade por um lado e, por outro, o bloco dos demais aspectos irredutíveis. Deixo o esclarecimento disto para outra oportunidade.)

A existência de analogias modais é sintomática tanto da diversidade quanto da unidade ou de algo maior que unifica esses aspectos modais. O fato das analogias indica que uma lei de um dado aspecto irredutível funciona analogamente em outro aspecto, e o mesmo ocorre com as demais leis-cerne dos demais aspectos modais. O conjunto ortogonal de relações inter-modais aponta para a universalidade dos aspectos modais. Já sabíamos disso ao afirmar que eram irredutíveis, e que, portanto, todas as entidades necessariamente funcionam em todos eles, ora ativa ora passivamente. Agora fica clara uma forma de se verificar empiricamente que isso é o caso.

Existe, ainda, outra coisa que unifica todos os aspectos modais. Todos eles existem no tempo. Temporalidade é o fator que "amarra" (se podemos colocar assim) os modos básicos de existência. Em outras palavras: todas as entidades existem universalmente nos aspectos modais irredutíveis até que deixem de existir.

Assim, em suma, a diversidade dos aspectos modais irredutíveis é explicada por suas distintas leis-cerne. A sua unidade pode ser verificada nos momentos analógicos das leis aspectuais, por um lado. Por outro lado, todas as entidades existem temporalmente. O tempo, então, atravessa toda a diversidade aspectual.

A experiência do dia-a-dia envolve unidade e diversidade, mas sem abstração. O pensamento teórico, por sua vez, efetua a análise (ou quebra) dos aspectos da realidade temporal e espera sintetizar (ou "colar de volta") todos os aspectos. A análise e a síntese geral cabe à filosofia. O estudo de cada aspecto em separado cabe às diversas disciplinas. A filosofia, ao tratar de certa forma da natureza básica da realidade, possibilita o pensamento teórico nas ciências especiais. Assim, há um momento em que a realidade temporal multi-aspectual é sintetizada pelo pensador e remetida ao seu ponto de Origem.

Já foi mencionado que as filosofias reducionistas não conseguem obter uma síntese satisfatória (no caso do dualismo) ou obtêm uma síntese monocromática ao remetê-la de volta à (e não para além da) realidade temporal. Já foram apontados os problemas principais dessas abordagens. Também já foi ressaltada a inconveniência de se localizar a Origem no cosmos como um todo. Todos esses procedimentos levam à perda de sentido e impossibilitam a inteligibilidade. No lugar, foi postulada uma visão de totalidade diversa, mas unificada. Resta saber como remeter todo "pacote" ao ponto de Origem.

Deve-se frisar novamente que todo pensamento teórico se orienta a partir de um pressuposto básico a respeito da Origem independente de todas as coisas. Ora, se já foi dito que todos os aspectos temporais são relativos entre si, e se qualquer possibilidade de Origem absoluta intra-cósmica já foi descartada, então só resta atribuir a Origem àquilo que se encontra fora da ordem temporal. Isso faz todo o sentido: afinal, a Origem origina as leis da realidade, inclusive a temporalidade e finitude da realidade.

Embora todo o pensamento teórico dependa de uma ideia de Origem, como explicado, vale acrescentar ainda mais um motivo para isso. Se todas as entidades funcionam universalmente em todos os aspectos modais, então o pensamento teórico, sendo uma entidade, funciona também em todos os aspectos modais. O aspecto fiduciário (ou pístico, relativo à fé) é um dos aspectos modais. Nada mais natural que o pensamento teórico tenha, além do componente analítico que lhe é corriqueiramente atribuído, um componente de fé.

O coração - o termo clássico que define o ser humano na sua integralidade - é o que remete o prisma da diversidade aspectual temporal para o seu pressuposto de Origem. Os judeus sabiam disso ao afirmarem que "do coração procedem as fontes da vida" (Pv. 4:23b). Tanto nas filosofias reducionistas como no pensamento teórico não-reducionista, o coração remete a visão de totalidade para seu ponto (verdadeiro ou falso) de Origem. É exatamente esse ato inicial de fé que direciona todo o restante do pensamento teórico e, na verdade, da existência humana, funcionando, assim, como formador de culturas, normas sociais, manifestações artísticas, etc.

Em suma, toda teoria, bem como toda visão de mundo de cunho mais tácito (sejam elas verdadeiras ou não) dependem de uma ideia de Origem da ordem da realidade cósmica. Não é vergonha nenhuma admitir que o conhecimento começa na fé sobre a natureza básica da realidade, da mesma forma que não é nenhum embaraço para a ciência depender da visão unificadora que a filosofia pode prover.

A opção humanista tem sido a de postular uma Origem intra-cósmica e de seguir, daí, para modelos reducionistas da realidade. O reducionismo tem o efeito teórico de destituir o objeto analisado do seu sentido pleno, ao descartar do estudo os aspectos modais considerados secundários ou mesmo inexistentes. O reducionismo pode, ainda, ter o efeito prático extremamente nocivo de moldar uma cultura em torno de um ou de alguns poucos aspectos a partir de uma visão distorcida das leis aspectuais que moldam a realidade. Como entidades, nós seres humanos também funcionamos em todos os aspectos modais. Além disso, temos a capacidade de funcionar ativamente em todos os aspectos irredutíveis. Mas é preciso desdobrar cada um desses aspectos, e ignorar a sua existência leva a um modo de vida atrofiado. O reducionismo retrata a realidade como menos diversa do que realmente é. Retrata as possibilidades e leis que regulam a existência como mais limitadas do que são. O resultado pode ser desastroso para o bem-estar.

O não-reducionismo, pelo contrário, consegue abordar teoricamente a natureza básica da realidade temporal e é capaz de moldar de forma mais positiva a cultura e a vida em comunidade, de modo a desdobrar toda a diversidade de aspectos da vida. Tudo isso, é claro, partindo do pressuposto de que a Origem se encontra na eternidade, ou seja, fora da ordem temporal.

Como cristão, enxergo um arcabouço geral não-reducionista como o único viável para um pensamento teórico que remeta a Origem ao Deus eterno. Se Ele é o Senhor do universo, ele também pode ser o Senhor do pensamento teórico. A fé coerente é aquela que procura se aperfeiçoar em termos da inclinação fundamental do coração em direção à Origem. Isso também deve incluir a maneira de se entender teoricamente o cosmos. Embora a maioria dos acadêmicos cristãos tenha aderido, a essas alturas, a algum tipo de reducionismo, eu sei de três coisas: primeiro, que o reducionismo é um projeto falido. Segundo, que, se toda teoria depende de uma Origem, ser cristão e reducionista ao mesmo tempo é servir a dois senhores. Por fim, sei que existe um mundo lá fora extremamente belo e interessante que tem sido caricaturado por toda sorte de pensamento humanista. Por que não colocar o pensamento teórico a serviço da missão de exaltar a Quem deve de fato ser exaltado?


Exeter, 20 Maio 2009.

4/28/2009

Ideia de Origem e Crítica Teórica

L. G. Freire


O pensamento teórico e a formação histórica de uma cultura são necessariamente influenciados de forma considerável por ideias acerca da Origem da existência, da unidade e da diversidade das coisas. Uma cosmovisão e uma matriz de pensamento teórico se definem em termos da inclinação pessoal tácita ou explícita em relação ao conteúdo desse conjunto de ideias transcendentais. Sem pressupor qualquer resposta a essas questões, o pensamento teórico jamais é possível. Daí ser esse relacionamento algo de cunho transcendental: trata-se da condição de possibilidade para algo.

Contudo, isso não quer dizer que todo pressuposto acerca da Origem lhe atribui transcendência de forma ativa. Por exemplo, o humanismo modernista e o humanismo pós-moderno querem sempre localizar o conteúdo das suas ideias transcendentais em coisas ou modalidades imanentes ao cosmos. Em suma: as ideias de Origem podem ser transencentes ou imanentes, mas seu caráter é sempre transcendental no sentido de possibilitar o pensamento teórico. Tudo isso pode ser resumido numa simples afirmação: qualquer teoria pressupõe uma ontologia, isto é, uma visão sistemática das categorias mais básicas que constituem o real.

O cristianismo (reformado) assume uma postura radical ao atribuir a Origem de tudo isso à Trindade auto-contida. Nada além dela é a Origem última da existência das coisas, nem da sua unidade e diversidade. Essa Origem se encontra em estado de permanente separação ontológica do cosmos. Por isso, é transcendente. Existe uma barreira intransponível entre a Trindade criadora e toda a criação. As leis naturais e os modos (simbólico, econômico, social, físico, etc) em que as coisas existem são tão reais quanto as próprias entidades que existem. Fazem parte do cosmos da mesma forma que essas entidades. Entidades e modalidades são ambas criadas. Por definição, elas não geram a Origem. Pelo contrário, são geradas pela Origem. Daí, é a coisa mais sem sentido do mundo querer explicar a Origem em termos da lógica interna do cosmos. Ou querer sujeitar Deus às restrições da ordem criada.

Mas quem é que quer fazer isso? O Dr. Dawkins, por exemplo. Mas ele ilustra um sem-número de argumentações falaciosas que apresentam essa inversão. Trata-se do tipo de argumento que, na premissa básica, afirma essa inversão de relacionamento entre Origem e cosmos. Eles dizem: "O cosmos é toda a realidade. O cosmos tem certas leis. Logo, tudo que é real deve se conformar a essas leis. Por que é, então, que Deus não se sujeita a essas leis? Quem criou Deus afinal?". O argumento não é falacioso por ofensa, mas porque tecnicamente não se sustenta. Essa é a definição de falácia. Para proceder, o argumento precisa confirmar todas as premissas. Mas a primeira é uma afirmação discutível.

É muito fácil prover uma crítica externa. A forma de um argumento externo a um argumento A é a seguinte: "B, e não A, é o caso. Seu argumento não se conforma com B. Logo, seu argumento é falso". Esse tipo de crítica, que quer derrubar A, na verdade já pressupõe que ele é falso desde o começo. É exatamente isso que acontece quando se inverte a relação entre Origem e Cosmos no argumento que se deseja refutar. É exatamente esse o erro formal que torna a questão "quem criou Deus?" sem sentido.

Além disso, é exatamente esse o erro de quem afirma que o cristão precisa dar evidência neutra e puramente imanente de que Deus existe. Ora, se o universo não for neutro, se neutralidade for impossível, e se nenhum argumento pode ser puramente imanente, então como cumprir esse critério? Na verdade, essa régua de medir a argumentação é uma forma de crítica externa também. O critério só é imposto porque a impossibilidade de neutralidade na argumentação é anulada desde o começo. Em suma: um imanentista só quer aceitar como argumento aquilo que for argumentação imanente. Só que esse critério é desprovido de qualquer sentido num universo em que isso é impossível. Ora, é justamente a realidade desse universo que ele precisa refutar - e não a do seu próprio!

Isso quer dizer duas coisas. Primeiro, boa parte do debate entre cosmovisões rivais é pura perda de tempo. A parte que se pauta por argumentos externos desse tipo tende a se assemelhar a um diálogo em dois idiomas distintos em que um interlocutor não sabe a linguagem do outro. Segundo, se existe a possibilidade de comunicação, essa deve ser buscada internamente aos pressupostos do lado oposto. A pergunta passa a ser: "pressupondo essas coisas, faz sentido afirmar isto ou aquilo?"

Pressupondo, então, uma moldura de pensamento em que a Origem se encontra fora do cosmos, faz sentido teorizar em termos a ideia da criação e uma série de procedimentos não-imanentistas de argumentação racional? Sim, claro. Pressupondo, por outro lado, um quadro geral que atribui a origem a certas coisas ou modos dentro do cosmos, faz sentido teorizar em termos da redução última de tudo o mais às coisas e modos originais?

É exatamente essa rota que parece ser a mais produtiva em termos de uma desconstrução caridosa da cosmovisão rival. Para mencionar uma vantagem, embora isso careça de maior desdobramento, deve-se notar que uma cosmovisão imanentista não consegue explicar o resto da realidade como se fosse todo ele redutível às coisas e aos modos de Origem dentro da própria realidade. Mostrar isso em cada tipo de imanentismo depende de um exame específico do seu conteúdo, mas em linhas gerais, isso quer dizer que uma visão reducionista do mundo é uma visão muito monocromática por definição.

Imagine se, como alguns pretendem, modelos microeconômicos de comportamento do consumidor explicam de fato toda a realidade social. Isto é, eles são o conteúdo das ideias de Origem da existência, da unidade e da diversidade das entidades sociais. Ora, o futebol é uma dessas entidades. O fato de podermos explicar o surgimento de um campeonato por incentivo econômico à sua criação, bem como a existência de múltiplas equipes que não obstante participam do mesmo campeonato não esgota os motivos pelos quais essas coisas existem. Não quer dizer que eles só existem economicamente, embora eles de fato tenham o modo econômico como um dos modos em que eles existem. Resumindo: uma visão economicista do futebol é como um filme em preto-e-branco. Todos os demais modos em que o mesmo fenômeno existe foram reduzidos ao puro cálculo racional de consumidores e produtores. Assim, há algo de estranho no reducionismo: ele precisa provar que estamos iludidos sobre a nossa percepção comum das coisas. Precisa nos convencer, no exemplo, que, ao fim e ao cabo, o que explica o futebol não é a criatividade esportiva, a paixão pelos times, a necessidade de exercício físico ou mesmo as propriedades físicas e motoras que são observadas no movimento da bola, sem contar as regras sociais que regem a conduta esportiva. Tudo isso é subsumido pelo interesse de firmas e compradores.

Ora, está claro que, em linhas gerais, o reducionismo contraria a nossa percepção normal das coisas. Isso não quer dizer que o modo que é considerado a Origem numa visão reducionista não seja real ou importante. Aliás, um dos motivos pelos quais mesmo o reducionismo tem um fundo de verdade e persuade certas pessoas é justamente o fato de esse modo ser de extremo relevo. Contudo, isso não quer dizer que seja correto forçar a redução da realidade a uma ou a algumas poucas modalidades de existência. Não se pode falar de qualquer coisa no universo usando apenas vocabulário referente a um modo. Isso é indicação cabal de que as coisas existem de diversos modos que são irredutíveis uns aos outros. O ponto, então, é que uma crítica interna às teorias imanentistas ganha força ao apontar as falhas do reducionismo que necessariamente resulta delas.

Ao atentar para a argumentação de cunho interno, o cristão, que direciona seu pensamento para Deus como Origem, pode explicar perfeitamente como essa Origem funciona de fato como a Origem. Mas será que o pensamento teórico imanentista pode explicar como, de fato, suas ideias de Origem agem dessa forma? É muito fácil rejeitar uma visão rival porque ela não se conforma, digamos, ao materialismo, na hora de oferecer evidência. Mas será que o próprio materialismo consegue se conformar à sua própria ideia de Origem? Será que ele consegue estabelecer suas proposições e rejeitar outras e, ao mesmo tempo, sustentar que a antítese (e outras leis da lógica) nada mais são que meros processos materiais? Será que ele consegue explicar a matéria sem usar nenhuma ideia que se refira a alguma oura coisa básica, visto afirmar ser a matéria - somente ela - o que é básico?

Exeter, 28 Abr. 2009 AD


Para ler: "Origem de Deus é Questão Absurda: entrevista com J. Lennox"

4/25/2009

Estado de Excepção



Vice-Rei Ben Bernanke e Imperador Barack concordam que o novo cenário securitizado - quem fala do Iraque agora? Iraque ou Wall Street, tanto faz. Existe motivo discursivo de sobra para ser inconstitucional - demanda novas "ferramentas".

Enquanto Bernanke propõe que sua organização privada inconstitucionalmente todapoderosa adote as tais "novas ferramentas" para combater a crise (junto com doze pseudoeconomistas), Obama quer botar restrições às possibilidades de defesa daqueles acusados de ameaçar a segurança das coisas securitizadas - no mundo de hoje, praticamente qualquer coisa.

A desconstrução é simples. Ben e Barry precisam admitir a ineficiência de seus valores de outrora por pressão política (ou porque eram hipócritas mesmo).

Bernanke precisa abrir mão do discurso tecnocrático de alquimista econômico. Precisa, necessariamente, provar que tudo o que pessoas como ele e os outro antieconomistas que o acompanham jamais tiver sequer noção sobre o que fazer a respeito da crise ou mesmo como entendê-la. Isso porque, se não o fizer, não haverá como justificar as tais "novas ferramentas" macroeconômicas.

Obama precisa abrir mão de acusar Bush de violação de liberdades civis básicas. Limitar as possibilidades de defesa de um acusado contra o Império em nome da segurança é exatamente a forma como o César anterior conseguiu abrir espaço para Guantanamo e outras coisas. Mas os especialistas, estrategistas, analistas e outros "istas" dizem que é a forma mais eficiente de obter a dita "segurança".

Mesmo os falsos Messias da América reconhecem que a crise e a guerra, ambas inconstitucionalmente causadas, ambas extremamente prejudiciais ao resto do mundo (menos aos financistas e aos militaristas) são oportunidades para estender o alcance dos tentáculos imperiais. Aliás, Messias não. Moisés e Arão. Um tem a pretensão de mediador milagreiro e outro tem a pretensão de sacerdote. Ambos querem fazer o povo americano cruzar o deserto da situação rumo à Terra Prometida da prosperidade fácil conquistada pela mão do Estado através de sacrifícios em nome do bem comum.

O novo sistema se ergue sobre a premissa de que ninguém faz ideia do que está acontecendo, por isso é preciso pensar fora da caixa. O sistema tem encontrado espaço por causa do carisma. Mas o carisma parece ser baseado em uma disposição extremamente burocrática e consequencialista. Enfim, o novo carisma é a racionalização.

E, por causa disso mesmo, o novo sistema é muito mais perigoso que qualquer outro jamais foi. Tecnocracia e buracracia em nome de nada que seja claro, como "segurança", é o total esquecimento de qualquer valor maior. Uma forma extremamente moderna de pósmodernidade. O carisma racionalizado que surpreenderia ao próprio Weber. Ou talvez não.

4/02/2009

Escrito antes da dita "crise"

O ABC do ciclo econômico - e o motivo pelo qual os governos fingem que acabam com ele mas na verdade só aumentam sua intensidade (Mais...)

4/01/2009

Sobre 1964 (ou 1917 parte B)

O que foi DUREZA para os nossos pais foi viver num mundo em que havia duas alternativas - socialismo azul ou socialismo vermelho. E o Brasil, criativo, inventou o socialismo camuflado. Literal e simbolicamente.

3/09/2009

Browning




The leaves be green
The nuts be browne
Thaie hange ſo high
Thaie will not come down

3/02/2009

Obama é Neocon!


... é o que diz o periódico Internationale Politik.

[LGF]