Introdução e Contexto
A Parte IIc pode ser compreendida melhor como o encore do concerto. Apesar de ter sido improvisada (até onde se sabe, da mesma forma que as demais peças), a base harmônica relativamente simples e o caráter altamente melódico do tema principal permitiram a reedição posterior desta passagem como uma canção avulsa intitulada Memories of Tomorrow.2 Ao que parece, tal publicação avulsa teve a autorização do próprio intérprete, notadamente zeloso quanto às transcrições oficiais de suas composições improvisadas. Sabe-se que esta parte é o encore do concerto devido à ocorrência de aplausos antes e depois do número. Como de fato ocorreu e tem ocorrido em outras ocasiões, é razoável supor que Jarrett informou de início à platéia a quantidade de movimentos e avisou sobre a possibilidade de aplausos somente ao final. Assim, o contexto desta peça dispensa maiores comentários, embora não seja clara pela gravação a ocorrência ou ausência de outros números (ou fragmentos) adicionais. Em todo caso, foi esta a peça selecionada pelo próprio Jarrett para compor a Parte IIc de forma a concluir o concerto na gravação.
A estrutura possui traços simples, sendo mais notáveis as características de textura do número. Percebem-se três divisões maiores: (1) Um tema, exposto duplamente; (2) Variações, onde a peça atinge seu clímax rítmico e dinâmico, sendo subdivididas em três partes com transições intermediárias; (3) Uma longa coda de retorno ao tema, marcada por um cuidadoso esmorecimento deliberado que leva ao final do concerto.
Exposição do Tema
00:00-00:35 – Sem introdução alguma, a melodia é logo apresentada com sua base harmônica no início. Aparenta lentidão, caso a audição desta passagem se concentre na melodia. Todavia, o acompanhamento é bastante movimentado, com a voz mais baixa a imitar um contrabaixo, e uma voz intermediária grave a apresentar o restante dos acordes e textura. Até à coda, é similar a distribuição de tarefas ao longo de toda a canção. Assim, o que se vê na apresentação do tema recorre, à exceção de algumas variações (principalmente na voz mais aguda). Em suma: a relativa independência da voz mais aguda e melodiosa é regrada pela voz mais grave, sendo harmonizada pelas camadas intermediárias do discurso musical. Tal é o padrão geral que se observa no número, e é exatamente a quebra de tal padrão que denota estruturalmente uma coda ao cabo.
00:35-01:13 – Precedido por uma curta passagem de maior novamente para menor, o tema é novamente apresentado com algumas variações rítmicas na melodia, embora não sejam tão evidentes quanto aquelas ainda por vir. A maior novidade nesta passagem é a ênfase concedida ao acompanhamento agudo da melodia, um pouco apagado no início – e de forma habilidosa no intuito de apresentar sem muito ruído o tema da melodia. Uma vez conhecido o tema, torna-se possível e desejável reapresentá-lo de uma nova forma: desta vez, com uma contramelodia, por assim dizer, a reforçar a harmonia nesta repetição do tema. Os demais acompanhamentos permanecem constantes. A combinação da constância destes com a novidade daquele possibilita apreciar melhor a notável virtude polifônica do intérprete, e a particularidade improvisada da execução da contramelodia empresta uma característica country um pouco deslocada à peça.
Variações
01:13-01:51 – Jarrett inicia a variação melódica antes de voltar ao início da progressão harmônica. As escalas agudas têm começo no acorde de transição para a tonalidade inicial do tema, e não após o reinício. Isso concede à primeira variação um humor de continuação, e não de rompimento, com a reexposição do tema que a antecede. Por extensão, sendo este o início da segunda seção maior da peça, há uma transição bastante sutil e quase imperceptível à primeira vista entre tema e variações. Tudo por conta da referida antecipação do trabalho de uma mão em relação à outra. Por volta de 1:19, um fragmento do tema reaparece escondido na contramelodia, enquanto a melodia se encarrega de escalas e floreados diversos. Essa inversão já antecipa a desconstrução futura maior da melodia principal, sendo quase que totalmente substituída por variações completamente originais nas partes posteriores. Por enquanto, essa tendência é somente antecipada, sendo a melodia temática retomada (em uma versão mais aguda) de 1:24 em diante. Mas note-se o diálogo entre essa melodia retomada e a contramelodia que emerge como resposta a partir de 01:31. De 01:35 a 01:38 Jarrett complexifica a harmonia introduzindo acordes intermediários, apresentando uma solução mais detalhada ao problema de se chegar ao tom maior sem que a continuidade com outra transição e a reintrodução do acorde temático fique muito óbvia. Embora o acorde seja o mesmo da tonalidade inicial da peça, o que se apresenta do 01:38 a 01:45 é um retorno ao final do tema, levando a uma transição que liga esta variação à próxima, iniciada em 01:51. O efeito geral é uma noção de aumento de dramaticidade, resultante desta inserção ‘elástica’ e da dinâmica/intensidade crescentes na sua execução.
Doravante, a tarefa de conferir unidade entre o tema e as variações cabe não à parte usualmente considerada como a principal (a melodia), mas sim à base harmônica e, principalmente, ao baixo que insistente em imitar um contrabaixo. Embora o ritmo e a alusão sejam ao Jazz, essa tomada do papel principal pela base harmônica e a função indispensável do baixo em detrimento da melodia são notadamente resquícios barrocos, mais utilizados nos acompanhamentos de câmara do que em solos instrumentais. Tal fato não desmonta a analogia barroca, dado o aspecto de diversos instrumentos (ou pelo menos um contrabaixo e um piano) simulados aqui.
01:51-02:27 – Esta é possivelmente a variação mais intensa, quebrando de vez com a ênfase da parte aguda na melodia. Desta vez, a base acompanha uma nuvem sonora de escalas que emendam de forma sofisticada um acorde ao outro. A repetição se dá de forma surpreendente na contramelodia, que funciona não mais de resposta a uma melodia dentro dos moldes, mas sim como uma força estabilizadora da nuvem sonora, servindo de auxílio para o repouso gradual. Esse movimento se evidencia principalmente entre 02:06 e 02:20, onde também devem-se notar tanto o fôlego como a técnica de Jarrett ao fazer escalas completamente independentes de qualquer coisa que esteja a ocorrer na base. A própria base inclusive é quebrada no grave para servir ao propósito dessa variação na sua parte aguda, atribuindo certa coloração distinta a esta passagem em particular. 02:24-02:27 é uma transição rápida para a próxima variação em moldes similares à primeira transição após a apresentação inicial do tema, inclusive retornando do agudo para a mesma altura intermediária do começo.
02:27-02:52 – Apesar do retorno de transição à altura inicial da exposição temática, Jarrett quebra a monotonia resultante da continuidade de tal retorno ao transpor para uma porção mais aguda do teclado o tema inicial. As vozes graves, tornando-se agudas, não podem mais fazer a função de contrabaixo imitado. Sendo assim, o intérprete lhes atribui outra função por algum tempo, sendo o baixo desta porção melhor caracterizado como um acompanhamento mais pianístico até que o retorno gradual para a parte intermediária do teclado corresponda a um retorno gradual da ritmação inicial (02:39-02:52). Esta variação sai do contrabaixo e a ele retorna. A novidade que marca as vozes agudas é um retorno à estabilidade do tema, agora transposto e com um ritmo mais preciso do que inicialmente.
Coda
02:52-05:32 – Jarrett introduz a coda de forma súbita, não emendando a variação que a antecede com uma nova seção temática, mas sim com uma repetição do final da melodia. A antecipação da coda nesses termos contribui para diminuir o grau imediato de transição rítmica entre a última variação e a coda, além de essa reexposição do final da melodia temática servir de transição dinâmica entre uma porção intensa e uma porção notadamente branda que é a parte final do número. Nesta transição devem-se notar: (1) a substituição do acompanhamento movimentado por pares de acordes inteiros, sendo o primeiro em geral uma transição para o acorde de duração mais longa (02:56-03:07); (2) a transformação do segundo acorde em uma nota simples, representando uma transição entre pares de acordes e um acompanhamento pianístico leve no qual os primeiros tempos proveem a harmonia e os demais tempos do compasso repetem notas dentro do acorde dos primeiros tempos (03:07-03:30ff); (3) a introdução gradual de uma contramelodia em resposta à melodia, mas na parte mais aguda (03:30-04:10). O diálogo entre melodia e contramelodia torna-se claro nesta passagem; (4) Um aumento da complexidade harmônica no acompanhamento, com grande ênfase na melodia (04:10-04:36); (5) Uma retomada do diálogo entre melodia e contramelodia, desta vez em forma de ‘perguntas’ e ‘respostas’ (04:46-05:30). Note-se que a ‘palavra final’ é da melodia e que mesmo o acompanhamento parece esmorecer diante da conclusão firme da linha melódica, que permanece ainda por alguns segundos, sendo interrompida pelos aplausos que delineiam o término do concerto.
L.G. Freire
Belo Horizonte, 04 Set. 2009

